Premonições
Um palpite curto sobre o atual estado de coisas
Quão maior for a perspectiva de uma guerra no horizonte, maior será a guinada da narrativa pública e das redes sociais em direção ao retorno aos papéis tradicionais de gênero. Em tempos de ameaça, sociedades tendem a buscar estruturas mais rígidas e seguras, e nisso a divisão clássica entre masculino e feminino ressurge como um instinto de sobrevivência coletiva.
Observem, por exemplo, a qualidade dos comentários em posts sobre redpills, incéis, questões de gênero, fofocas, feminismo e toda sorte de contemporaneidades: o tom mudou. As pessoas estão mais exacerbadas, parecem não comprar mais o discurso progressista pronto, debocham dos assuntos e puxam a responsabilidade para os indivíduos: homens aos homens, mulheres às mulheres. Já não há aquela passada de mão na cabeça, por concordância ou medo, às minorias e afins.
Há quem nomeie esse fenômeno de “internet is healing”. Não discordamos, mas é preciso apontar algumas considerações. A primeira é que, ao mesmo tempo, o movimento de validação e segurança em torno de temas outrora expostos e atacados (sobretudo o da masculinidade) parece funcionar como um mecanismo de defesa coletivo e uma expiação acumulada. Explico: na pior das hipóteses, ele apenas ameniza a sensação de identidade perturbada que essas coletividades carregam — os homens em relação a si mesmos, as mulheres em relação a elas, e ambos por causa da relação entre um e outro. Na melhor das hipóteses, é simplesmente a água batendo na bunda.
Acontece que o ânimo de todo o mundo se acirra: país contra país, minoria contra minoria, sistema contra sistema. O mesmo clima que endurece as disputas nas redes é o que endurece as disputas internacionais. Parece inevitável que uma guerra surja para resolver os conflitos que não foram apaziguados na palavra. E aí, para a surpresa de todos, teremos uma boa quantidade de oprimidos com armas na mão. Será uma revolução, fragging generalizado, ou vingança pura e simples, no estilo Full Metal Jacket?
Justamente por isso tenho essa impressão: as coisas estão mudando porque, de algum modo — até inconsciente —, estamos percebendo que há muita onça sendo cutucada com vara curta. E quando ela avançar, não haverá mais rótulos ou privilégios: só sobrevivência. As pessoas irão querer se proteger e serem protegidas. Nessa hora, bem, cairão os rótulos. Acho que assistiremos a terceira guerra mundial, e ela será o conjunto de todas as guerras regionais. Uma guerra multi-core.
Restará apenas a violência pura e simples, e o desejo de que aqueles que foram educados para cometê-la com princípios, valores, hierarquias e moral justa estejam do nosso lado.
Então, essa é minha impressão. Não sei o quanto disso realmente faz sentido, mas vendo de fora, de cima, à distância, tenho essa intuição incômoda: é um controle de danos. Alguém já percebeu que ficará feio. Melhor reverter antes que o ressentimento pegue em armas.
O Misantrópico




Penso que ideias artificiais só resistem enquanto são possíveis de se manter as custas dos esforços de outros, logo em um cenário de guerra a realidade se impõe, e ela é soberana. A tradição é um cumulado de erros e acertos de milhares de humanos, além de ser fonte de sentido transcendental, podendo ser adotada em momentos de crise, justamente por ter sobrevivido ao critério do tempo. Não acho que esteja havendo um retorno antes que piore, acho que jovens ( homens em maioria) estão fazendo o que jovens fazem indo contra as ideias da geração anterior; essas pessoas e outras também percebem como essas ideias são ruins e artificiais (exemplos não faltam). Ainda há quem dobre a aposta e continue empurrando essas ideias ruins adiante, inclusive contando com a força estatal.