Guerra
Ou: o mundo prático dos sonhadores
Morador de Imbituba, no Sul de Santa Catarina, Magdiel Bastos, de 35 anos, enfrentou uma experiência estranha ao decidir servir à Ucrânia no conflito contra a Rússia. Motivado inicialmente por promessas financeiras dos recrutadores e pelo desejo de proporcionar uma vida melhor à esposa e aos três filhos, ele viajou à Europa em julho. Após escalas de voos, chegou à Polônia e, de lá, seguiu de trem para Kiev. Magdiel, que já praticava tiro com frequência e sonhava em ser militar, recebeu um contrato de três anos para servir às forças armadas ucranianas, mas logo percebeu que as condições eram bem diferentes do que lhe haviam prometido: o salário era de apenas R$ 2,5 mil, com bonificações de R$ 10 a 15 mil apenas na linha de frente, e a indenização para a família só ocorreria se seu corpo fosse recuperado. A morte de seu amigo Gustavo Viana e de outros brasileiros no mesmo batalhão reforçou suas desconfianças, levando-o a decidir pelo retorno ao Brasil. A expectativa de sobrevivência é de 24 horas.
A volta para Santa Catarina, porém, foi marcada por dificuldades: após deixar a Ucrânia em 21 de julho, ele buscou informações na embaixada da Polônia e chegou a receber apenas R$ 300, precisando se hospedar em um albergue e passar alguns dias sem alimentação adequada. Com o apoio de amigos e familiares, que organizaram uma vaquinha, e de um amigo empresário que custeou sua passagem de retorno, Magdiel iniciou a viagem em 28 de julho e desembarcou em solo catarinense dias depois. O brasileiro, que havia planejado abrir um negócio com o dinheiro que ganharia na guerra, precisou mudar os planos e hoje está empregado, em casa com a família, e se arrepende da experiência. Um torneio beneficente foi realizado em 14 de setembro para repor o valor doado pelo amigo que o ajudou.
Pobre homem. O mundo que ele imaginou já havia desaparecido muito antes de ele sequer entrar nele. E eu acho que isso sempre foi assim, com todos nossos sonhadores. Mas penso que nossos antepassados mantinham melhor a ilusão, com uma graça maravilhosa. Sem essa fraqueza toda que nos faz virar o rosto, risível.
O Misantrópico



