Estrangeiro
Ou: Freddy Mercury
Albert Camus, em O Estrangeiro, narra a história de Meursault, um homem apático diante da própria vida. O personagem, encantador desde o primeiro momento (se você tiver senso de ironia), jamais demonstra as emoções esperadas: nem no velório da mãe, nem ao confessar o assassinato de um árabe. É condenado à morte, não apenas pelo crime, mas pela recusa em aceitar as convenções sociais e religiosas. À espera da execução, enfrenta a insistência de um capelão em convertê-lo. No confronto final, recusa a fé e aceita a indiferença do universo.
Lendo o romance, é possível enxergar, quase como exercício de imaginação, a trajetória de Meursault refletida nos versos de Bohemian Rhapsody. A canção de Freddie Mercury, com sua estrutura fragmentada e mudança de estilos — balada, ópera e rock — pode ser lida como o percurso emocional do personagem: da confissão ao julgamento, do confronto com a moral alheia até a aceitação do nada.
O início (“Is this the real life? Is this just fantasy?”) ecoa a sensação de estranhamento que Meursault sente nos momentos decisivos, especialmente durante o julgamento. Sua indiferença dá a impressão de que vive a vida de outra pessoa, ou um sonho distante. Após o crime (“Caught in a landslide, no escape from reality”), ele é arrastado pelo inevitável, pois não há fuga de sua sentença. E, quando Mercury canta “I’m just a poor boy, I need no sympathy”, ressoa a recusa de Meursault em buscar piedade: não quer a compaixão dos outros nem a clemência de Deus.
O verso “Mama, I just killed a man” é literal no romance: ele mata o árabe à beira-mar.. Mas a relação com a mãe vai além. Nos últimos dias, Meursault compreende o estado de espírito dela antes de morrer: o desejo de um recomeço mesmo diante do fim. Assim, “life had just begun” adquire o sentido de uma liberdade interior tardia — que, para ele, chega junto da sentença. A aparente resignação (“Carry on, as if nothing really matters”) reflete sua visão de que a morte nada muda: o mundo seguirá indiferente, como seguiu após a morte de sua mãe.
A parte operística da canção oferece paralelos mais simbólicos. Personagens caricatos como Scaramouche e Figaro podem ser lidos como metáforas das expectativas sociais: o advogado e o promotor esperam que ele chore, que demonstre arrependimento, que represente o papel do réu contrito, mais ou menos a relação de vocês casados e vossas esposas. Ele se recusa a “dançar” para satisfazer esse teatro moral. O “Bismillah! We will not let you go” ganha carga irônica ao lembrarmos que a vítima era árabe: é “em nome de Deus” que a sociedade lhe nega a vida. E “Beelzebub has a devil put aside for me” remete ao apelido de “anticristo” que recebe do magistrado.
No clímax do rock (“So you think you can stop me and spit in my eye?”), ecoa a explosão final contra o capelão: oferecer-lhe a ilusão de uma vida após a morte é, para Meursault, cuspir-lhe o rosto. Ele rejeita tanto a promessa quanto a ameaça. A canção então recua para o mesmo niilismo lúcido com que o romance se encerra: “Nothing really matters… anyway the wind blows.”
No livro, isso se traduz na percepção de que nada tem importância, e que a vida inteira foi atravessada por essa “brisa” da indiferença universal. Camus escrevia pra dedéu, e não sei nem como, por algum motivo, Crime e Castigo consegue ser mais bem referenciado. Alô, Biblioteca Católica e afins, publiquem esse com um ensaio introdutório. Pode ser o meu. Podem me pagar em indulgências plenárias. Enfim.
Ao aproximar Camus e Mercury, não pretendo afirmar que a canção seja sobre o romance, ipsis litteris. Mas o diálogo imaginário entre O Estrangeiro e Bohemian Rhapsody ocorre na mesma paisagem existencial: a solidão do indivíduo diante da morte, a recusa em fingir para obter aceitação e a serenidade — ou vertigem, voragem — de aceitar que o universo não está contra nem a favor de nós. Ele só faz sentido quando a gente o força.
De qualquer modo, “O Mágico de Oz” sincroniza perfeitamente com “Dark Side of The Moon”, e ninguém enche o saco ou cria caso com isso. Então aceitem, e boa quinta-feira.
O Misantrópico



