E a chance de ganharem é zero
Um comentário breve sobre o defeito conceitual mais latente da literatura conservadora
Vou resumir a matéria o melhor que puder, caro leitor, não tanto por virtude de concisão, que nunca tive, mas para que o mesmo leitor, se julgar desde já o assunto enfadonho ou demasiado literário para as suas horas livres, deixe estas páginas e volte tranquilamente ao seu PlayStation 5, que ao menos não exige opiniões sobre estética nem civilização.
Direi, pois, sem rodeios excessivos, embora os rodeios me acudam naturalmente à pena, que a chamada literatura conservadora nunca será nada daquilo que imagina vir a ser. E aqui está justamente o ponto, que é menos político do que parece, e talvez mais triste: é que os homens que a tentam fabricar não desejam propriamente fazer literatura; desejam fazer literatura conservadora.
Ora, esta inversão, que a alguns parecerá simples jogo de palavras, contém quase toda a miséria da empresa. Porque a literatura, quando nasce já adjetivada, entra no mundo menos como obra do espírito do que como peça de intenção. E os personagens, nascidos do propósito de ocupar trincheiras, corrigir costumes ou responder inimigos, tentando obsequiosamente restaurar alguma dignidade abstrata, existem antes da frase, do ritmo ou estilo.
A literatura, eis que concordarão, deixará de querer ser livro e passará a querer ser prova, reação ou manifesto, berloque no pescoço da desforra.
Não digo que daí não possam sair páginas toleráveis; saem, como de quase tudo neste mundo. Mas falta-lhes aquela necessidade obscura e anterior a qualquer doutrina, sem a qual a literatura pode até convencer alguns homens, embora raramente consiga permanecer entre eles.
E é aqui, se não me engano, que aparece o mais grave defeito dessas literalidades novas; digo grave, não pelos estragos imediatos que produzam, que a literatura raramente derruba mais que algumas estantes e certas vaidades de província, mas pelo equívoco de nascença que lhes vai na alma.
A chamada literatura conservadora acabará sendo apenas a mesma literatura de esquerda, trocadas as librés e mudados os ressentimentos. Onde uns põem operários, outros porão patriotas; onde estes escrevem degeneração, aqueles escreveram opressão; muda-se o repertório das indignações, conserva-se intacto o mecanismo delas. O espírito, esse, fica. Há sempre o mesmo desejo antecedente de corrigir o mundo antes de observar os homens, a mesma pressa doutrinária, a mesma tendência de fazer dos personagens não criaturas, mas argumentos com pernas.
Variam as caricaturas; a caricatura permanece.
O Misantrópico




Belo e profundo comentário, jovem mestre Brian . Gostei muitíssimo.
...continuando meu comentário anterior.
Pelo pouquíssimo que conheço de vc (faz apenas 3 dias que tomei conhecimento do seu nome) penso que vc vai achar muito careta, babaca e fora de propósito, o fato de eu tê-lo chamado de mestre (não que vc não o seja, apesar de bem jovem) mas creio que vc não gosta nem um pouco de ser "incensado" assim por quem mal o conhece (e não só por esse motivo, quem sabe...).
Melhor parar por aqui com tanto blá blá blá recheado de intragável linguiça. rsrsrsrsrsrs.